quarta-feira, 26 de outubro de 2011

LUTO E SINGELEZA

Nossa viagem foi assim:
Época: Outubro *****
Hotel: Renaissance Times Square ****
Faixa etária das crianças: 7-9 anos ***** 
Depois de sofrer um pouco em nossa primeira passagem por NY, no meio dos rigores do inverno novaiorquino, estivemos lá num agradável início de outono para nos redimir. E que redenção! A viagem foi muito tranquila, e pudemos aproveitar de verdade o que a Big Apple tem para oferecer às crianças.

Um dos pontos altos da nossa viagem, sem sombra de dúvida, foi a visita ao Memorial de 11 de Setembro (911memorial.org). Esse espaço, antes ocupado pelos gigantescos prédios gêmeos do World Trade Center, foi totalmente recuperado e reinventado, e agora abriga um monumento de uma beleza e sensibilidade difíceis de se traduzir em palavras.

Obviamente esse não é um passeio para qualquer criança. Mas se seus filhos forem um pouco maiores, é uma excelente oportunidade de explicar a eles esses eventos incompreensíveis que aconteceram antes de seu nascimento. Se as crianças forem menores, também dá para conhecer o monumento, mas arme-se de uma certa dose de paciência para enfrentar os trâmites de ingressos, entrada, etc.

Uma das piscinas. Ao fundo,
o novo prédio em construção.
Exatamente no local originalmente ocupado pelos prédios destruídos, foram colocadas duas piscinas quadradas gigantescas, cercadas nos quatro lados por cascatas. A água vai caindo placidamente até um buraco no centro, cujo fundo não se vê. Ao olhar para esse buraco não conseguimos evitar a sensação de que, com os atentados, algo foi inevitavelmente perdido, e escorreu junto com essa água para um lugar inalcançável.

Ao redor de cada piscina, foram colocados largos parapeitos de granito preto, e nesses parapeitos estão gravados os nomes de todas as vítimas dos atentados, não só em Nova York, como também em Washington e na queda dos aviões. Familiares e amigos dos falecidos caminham bem devagar em volta dos parapeitos, procurando o nome dos seus. Quando encontram, com papel e lápis fazem decalques das letras gravadas em baixo relevo na pedra. Uma visão triste, tocante, que faz com que nos solidarizemos, mesmo sem pensar, com aquelas pessoas.
Desenho que mostra a
posição dos nomes
ao redor das piscinas.
Essa visita não é um passeio comum, como os outros que se faz em Nova York. É um momento muito impressionante, em que centenas de pessoas, a maioria turistas, estão numa das maiores atrações da cidade, e não conseguem dizer palavra. No memorial em si, as pessoas falam em voz baixa, não se vê aquele frenesi turístico de outros lugares da cidade. Apenas o barulho das construções sendo erguidas ao redor se sobrepõe a esse silêncio não forçado. Mas o mais impressionante é a visita à loja: imagine uma loja de souvenirs apinhada de turistas, e absolutamente silenciosa. Os únicos sons que se ouvem são os bipes dos produtos sendo passados no caixa, e o áudio de um filme sobre os atentados que fica passando no telão, com depoimentos de familiares e sobreviventes.

O memorial foi aberto para visitação pública logo após as comemorações do décimo aniversário dos ataques terroristas, ocorrido esse ano. Ele fica bem no meio de vários canteiros de obras, pois à sua volta os novos prédios que foram projetados para essa região estão sendo erguidos a toque de caixa. Mesmo assim, em se tratando de EUA, a visita é muito tranquila e segura, apesar de exigir um pouco de paciência.

Antes de embarcar para NY, acesse o site do memorial na internet para reservar seu horário. A visita é gratuita, mas sem a reserva e sem seus ingressos na mão, o acesso será negado. Para chegar no memorial, o metrô é muito fácil e tem uma estação bem pertinho (estação Cortlandt St). Programe-se para chegar uns 30 minutos antes do horário para o qual fez a reserva, levando em consideração que o percurso de metrô desde Midtown demora cerca de 30 minutos.

Ao sair da estação, não siga as setas que indicam a entrada do memorial. Você terá que passar no Preview Site, na Vesey Street, ANTES de se dirigir ao local da visita, para retirar os ingressos reservados por você. Ao efetuar a reserva no site, você receberá as instruções. Aparentemente existe a possibilidade de imprimir os ingressos em casa, mas como estávamos no computador do lobby do nosso hotel, não tínhamos impressora disponível.

O memorial fica em meio
a canteiros de obras.
Uma vez com os ingressos na mão, você deve caminhar até o ponto de entrada do memorial (cerca de 10 minutos a pé). Há várias setas indicando o local, na esquina das ruas Greenwich e Liberty. Você terá que passar pela segurança (raio X para os pertences e detector de metal - ultrassensível, é preciso tirar até cinto e moedas dos bolsos) e atravessar uma parte do canteiro de obras (tudo na maior segurança, é claro) para acessar o memorial. Todo esse trâmite demora de 10 a 15 minutos; um pouco mais se a fila estiver longa.

Quando você entrar, não há limite para sua permanência. Visite as duas piscinas, dando a volta em cada uma delas bem devagar. Leia os nomes e o local onde aquelas pessoas se encontravam no momento dos ataques. Os espelhos d´água são cercados por árvores e bancos. Ao lado do memorial, o novo prédio do WTC está sendo construído. Ele já é visível de boa parte da ilha (desde o Empire State, nos passeios de barco ao redor de Manhattan). A visita toda demora cerca de 30 minutos a 1 hora.

Chafariz no Battery Park
Você pode aproveitar que está na região sul de Manhattan e visitar outros pontos turísticos próximos, como Wall Street, o pequeno e simpático parque Bowling Green com o famoso touro de bronze, o Battery Park com vista para a Estátua da Liberdade, ótimo para as crianças brincarem e correrem um pouco...

Para dizer a verdade, não sabíamos muito o que esperar do Memorial de 11/9. Agora que visitamos, podemos dizer com certeza que vale a visita. Os americanos conseguiram construir um monumento singelo, sem nenhum traço de ufanismo, sem auto-flagelação, sem dó de si mesmos e sem nenhum sinal de rancor. Apenas um lugar para preservar a memória dos que faleceram; um lugar onde os parentes e amigos podem prestar homenagem a muitas vítimas cujo corpo sequer foi encontrado.

O Memorial é um lugar onde a dor finalmente encontrou uma expressão poética e concreta, e onde poderá continuar, sem que ninguém queira enterrá-la e esquecê-la, apenas deixá-la fluir com a água para dentro de um lugar inalcançável.