domingo, 5 de agosto de 2012

NO MEIO DA AUSTRÁLIA TINHA UMA PEDRA: ULURU

 

Por: M.C.Carvalho

Ayers Rock - Uluru
 

“No meio do caminho tinha uma pedra 

tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra 

no meio do caminho tinha uma pedra…”




No meio da enorme planície do deserto vermelho australiano (“The Red Centre”), uma pedra surge assim do nada, imensa, alaranjada, de uma simetria incrível, meio mágica, meio misteriosa.

Inicialmente batizada pelos ingleses de Ayers Rock,  agora é oficialmente conhecida por Uluru. Em 1985 foi formalmente devolvida pelos australianos para os aborígenes locais, os anangus, e posteriormente arrendada ao governo australiano por 99 anos!

A formação rochosa, oficialmente um monólito, fica a 450 quilômetros de distância da cidade mais próxima, Alice Springs, numa região administrativa conhecida como Yulara, parte do Parque Nacional de Uluru-Kata Tjuta, considerado Patrimônio da Humanidade pela ONU (World Heritage Site).

Todo um complexo turístico, Ayers Rock Resort, foi montado para explorar o Uluru, assim como a vizinha Kata Tjuta, de nome britânico “Olgas”, uma outra formação rochosa única.

O Ayers Rock Resort conta com um aeroporto, meia dúzia de hotéis, um acampamento, restaurantes, algumas lojinhas e um supermercado – todos dentro de um único complexo administrado pela empresa Voyages Indigenous Tourism Australia . O site do Ayers Rock Resort apresenta todas as possibilidades de hospedagem que podem ser diretamente reservadas com a companhia. Além disso, sugere passeios, itinerários e dicas diversas para facilitar o planejamento da sua viagem.

A hospedagem em Ayers Rock está bem acima do preço cobrado por um hotel de mesmo nível em uma grande cidade, talvez pela dificuldade em administrar-se um resort tão remoto, e mais certamente devido ao monopólio da companhia.

O hotel mais exclusivo e luxuoso da região atende pelo nome de Longitude 131° (uma referência à localização da pedra) – a única opção de hospedagem localizada fora do complexo (3 km). Apenas 15 “cabanas” enfileiradas com vista total para o Uluru e a promessa de excelente serviço, que, no entanto, não atende famílias com menores de 16 anos[1]. Com esta opção descartada, restavam-nos, de acordo com a classificação sugerida no site:

·         Sails in the Garden – categoria “Premium” 5 estrelas
·         Desert Gardens – categoria “Superior” 4 estrelas
·         The Lost Camel – categoria “Moderna” 3 estrelas
·         Emu Walk Apartments – apartamentos mobiliados para até 6 pessoas
·         Outback Pioneer – categoria “Autêntico” 2 estrelas
·         Ayers Rock Camp – acampamento

O Uluru é um popular destino turístico na Austrália, assim, a disponibilidade de opções diminui muito com a proximidade da viagem. No nosso caso, mesmo cotando com quase sete meses de antecedência, o Sails in the Garden já não tinha disponibilidade para uma família de 4.  Além disso, as configurações dos quartos diferem de hotel para hotel. No Sails, há quartos grandes com duas camas de casal (queen beds) que bem acomodam quatro pessoas e também quartos menores conjugados. Já o Desert Gardens até tem opções de quartos que acomodam quatro pessoas, mas com camas menores (double beds) e o Outback Pioneer tem quartos com beliches (bunk beds).

As diárias são salgadas. Na época da nossa viagem (alta temporada) para acomodar quatro pessoas no mesmo quarto (dois adultos e duas crianças) cerca de Au$980/quarto/dia no Sails, Au$ 818 no Desert, Au$778 no Emu. O Lost Camel não tem quartos grandes e precisaríamos de dois quartos que sairiam por Au$ 498 cada num total de Au$996/dia.

Fatoramos a curta duração da nossa estadia (apenas 2 noites) e optamos por ficar os quatro em um só quarto no Desert, melhor e mais barato que os dois quartos do Lost Camel e quase o mesmo preço do apartamento Emu, que era muito mais simples e oferecia menos serviços.

Listamos todos os passeios disponíveis para explorar a região, mas não fizemos nenhuma reserva antecipadamente (erro que perceberíamos mais tarde). A única reserva feita antes de partir foi para o jantar Sounds of Silence[2], uma experiência que inclui observar o pôr-do-sol no Uluru, jantar um menu tipicamente australiano (incluindo carne de crocodilo e canguru) e observar as estrelas com a ajuda de um telescópio e um astrônomo amador.

As opiniões sobre esta atividade nos guias especializados era sempre excelente, mas não recomendada a famílias com crianças menores de 10 anos, pois a ceia é servida literalmente no meio do deserto e na penumbra, sem chances de sair mais cedo ou atender necessidades especiais.

Quando se lê a descrição no site, é inevitável que uma voz interior sussurre no seu ouvido: “pegadinha”, “fria”, “programa de índio”, “coisa pra gringo” e outras advertências. Mas no final acabamos reservando. Apesar dos riscos, era algo tão diferente de qualquer outro programa, que achamos que valia a pena.

Um outro ponto a ser resolvido antes da partida era a locomoção. Todos os hóspedes tem direito a usar um transporte gratuito entre o aeroporto e o resort em ônibus fretado. Sempre que um voo chega, há um ônibus esperando. Nós resolvemos contratar um serviço particular para levar-nos ao resort. A vantagem é chegar ao hotel (e à fila do check-in) antes da horda de passageiros que desembarca do ônibus!

Você também pode optar por alugar um carro. A mão é inglesa, mas não há trânsito algum e basicamente uma única estrada ligando aeroporto-resort-Uluru-Kata Tjuta (prefira os carros com cambio automático, trocar marchas com a mão esquerda pode representar um desafio!). O carro só vale a pena se você contratar um guia local, afinal, a história, as tradições e o misticismo fazem a mágica do local. Caso opte pelo aluguel do carro, providencie no resort ingressos para o parque nacional para todos os membros de sua família.

Vale ressaltar que tudo pode mudar muito rapidamente no turismo em torno do Uluru. Isto porque em maio de 2011 a ILC, um órgão governamental australiano, comprou da multinacional GTC (que era a responsável pelo local), todo o complexo de Yulara. Acredita-se que o governo australiano em conjunto com representantes dos anangus promova uma reforma total da infra-estrutura hoteleira, treinando e empregando os nativos e adequando o resort aos padrões determinados pelos aborígenes para que o turista tenha uma experiência que o aproxime dos ideais de vida do seu povo. Nós acreditamos que estas mudanças serão bem-vindas. Era um absurdo deixar um patrimônio natural destes sob os cuidados de uma empresa que há anos não investia na manutenção das instalações, empregava pessoal despreparado e praticava preços abusivos.

Nossa jornada

Chegamos ao aeroporto de  Ayers Rock com um céu absolutamente azul, e os quase 40°C de temperatura sem nenhuma brisa não deixavam dúvida de que desembarcáramos no deserto, literalmente no meio do nada! Nosso motorista da SEIT-Outback Australia nos levou rapidamente ao Desert Gardens, informando-nos que a empresa oferecia diversas excursões ao parque em grupos pequenos que poderiam ser contratadas no balcão de excursões do resort.

Nossa primeira impressão do hotel foi desoladora: feio, antiquado, muita gente, malas por todo lado, filas no check-in, atendentes inexperientes e um calor infernal. O quarto só ficaria disponível às 15 horas, então fomos direcionados à área dos restaurantes/lojas. Naquela noite tínhamos agendado o Sounds of Silence e a saída estava prevista para as 18 horas, então não havia muito o que fazer.

Andamos pelo complexo em busca de um local para comer, e a imagem era a mesma: desolação. Paisagismo inexistente, mato por todo lado, poeira vermelha, prédios antigos, coisas quebradas, nenhum charme.  Ficamos no Gecko’s Café, uma “lanchonete” com opções variadas para um almoço rápido, tudo bem gostoso. Passamos pelo supermercado para nos abastecer de muita água mineral, protetor solar e repelente!

Há muitas moscas, mosquitos e pequenos seres voadores por estas bandas. Muita gente chega a comprar chapéus com redinhas para proteger o rosto e evitar de engolir uma. Repelente precisa ser usado sempre! E reaplicado com freqüência. No calor do deserto, seu suor acaba por remover a camada de proteção. E olhe que fomos informados que demos imensa sorte, e que havia “pouca” mosca na época de nossa visita. Aparentemente a primavera de 2011 foi extremamente chuvosa para os parâmetros de deserto e, até por isso, a paisagem estava um pouco mais verde e cheia de pequenas flores do que de hábito.

Finalmente chegamos ao centro de excursões, uma sala grande onde as empresas têm balcões apresentando os programas oferecidos. Fomos direto ao stand da SEIT, mas inacreditavelmente não havia nada disponível para o dia seguinte. Teríamos que nos juntar a um grupo maior, e acabamos ficando com a ATT Kings – a maior operadora turística da Australia.

Queríamos conhecer as duas “pedras”: o Uluru e Kata Tjuta. Como veríamos o pôr-do-sol no Uluru durante o jantar Sounds of Silence, queríamos ver o Uluru pela manhã do dia seguinte e o pôr-do-sol em Kata Tjuta, porém não havia nenhuma excursão assim.

O jeito foi reservar uma programação matutina no Uluru (que começa por volta das 4:30 da madrugada) e inclui visita ao Centro Cultural e para o fim de tarde uma excursão em Kata Tjuta combinada com um novo pôr-do-sol no Uluru.

Cada excursão (que inclui transporte, guias, o ingresso ao parque natural e água mineral) custa por volta de Au$170 por adulto, crianças até 12 anos pagam meia – os preços da SEIT podem ser ainda mais altos!

Há inúmeras opções, tanto nas operadoras mencionadas, como em outras. Desde o final de janeiro de 2012, uma das mais recomendadas, a tradicional operadora turística dos próprios aborígenes, a Anangu Tours deixou de prestar serviços - ainda não se sabe se voltarão a operar.

Arrependemo-nos de não ter pesquisado e reservado estas excursões com mais cuidado e antecedência. Não que haja muita coisa diferente a ser feita, mas há nuances e diferentes focos para os passeios.  Além das caminhadas, há voos panorâmicos, passeios de motocicleta Harley-Davidson, passeios de camelo.

Uma vez acertado o pagamento, você recebe os vouchers, ingressos para o parque nacional, que devem ser portados durante todo o tempo, e as instruções de cada tour.

Resolvemos recuperar nossas malas e conhecer nosso quarto. Nova fila na recepção e uma atendente que não conseguia precisar por onde andavam nossas coisas. Depois de idas e vindas, chegaram à conclusão de que estavam no quarto, então fomos para lá. O resort não é um prédio, são vários pequenos prédios de dois andares espalhados por uma vasta área (caminha-se muito por corredores ao ar livre sob um sol inclemente). Nossa chave não funcionava, pedimos a ajuda de um camareiro que passava, já chorando com a possibilidade de ter que voltar por todo o caminho até a recepção. Descobrimos que nosso quarto havia sido trancado por dentro com uma chave de segurança! Foram mais de vinte minutos até que alguém teve a brilhante idéia de “arrombar” a varanda e entrar por lá.

Dentro do quarto, surpresa: recentemente renovado, camas confortáveis, ar-condicionado funcionando perfeitamente, banheiro moderno. A varanda ampla, mas suja de poeira vermelha do deserto e “mobiliada” com um par de cadeiras velhas.

Havia tempo para um mergulho. Na piscina, o mesmo sinal de abandono: mais cadeiras velhas, azulejos quebrados, zero de manutenção e cuidado. Mas com um calor de rachar coquinho, qualquer piscina teria servido.

No horário previsto estávamos a postos na recepção para o jantar no deserto. Algumas pessoas exageram e se vestem como se estivessem indo a um casamento, mas em geral todos aparecem bem arrumados. Partimos em dois ônibus rumo ao local escolhido para o jantar. Entendemos que há diversos locais pré-preparados para o Sounds of Silence, todos com vista para o Uluru, mas em diferentes pontos. Cada ônibus com aproximadamente 40 pessoas é deixado em um destes locais, para que não haja excesso de pessoas que estrague a essência da experiência.

Enquanto o sol se põe, todos são acomodados em uma pequena área onde são servidos aperitivos, espumantes e sucos. Não há cadeiras ou mesas, apenas alguns bancos espalhados. O foco fica no Uluru, que, conforme o sol vai baixando, assume colorações diversas, do vermelho intenso ao alaranjado.  O pôr-do-sol é realmente muito bonito e inspirador: muitos tons no céu, estrelas despontando, um solo árido com uma vegetação de arbustos e pequenas florzinhas amarelas. Sabe-se que o Uluru, além de seus 348 m de altura continua abaixo da terra por tantas outras centenas de metros, como um grande iceberg marrom!

Uma vez terminado o pôr-do-sol, o zum-zum-zum recomeça e todos são direcionados por um caminho iluminado por pequenas velas ao local do jantar, a algumas dezenas de metros. Grandes mesas redondas que acomodam de oito a dez pessoas estão prontas para a ceia, com bonitas cerâmicas e cristais. Ao lado, um buffet com iguarias típicas e acompanhamentos e algumas seleções doces. O maitre dá as boas-vindas aos comensais, repassa a seleção de vinhos (australianos) e convida as mesas ao buffet, uma a uma. Os vinhos estavam excelentes, a comida honesta. Não achamos nenhuma das iguarias dignas de elogios rasgados: a carne de canguru é muito dura, o churrasco australiano interessante.

Nosso grupo era formado por mais de 30 italianos viajando em grupo. Nós, os “não-italianos”, sentamos juntos em uma mesa: um casal de americanos, duas amigas universitárias americanas, um casal de britânicos e os quatro brasileiros. Foi interessante conversar e entender a perspectiva de cada um ao vir para este lugar tão remoto. Não houve muito do “silêncio” prometido, até porque, 30 italianos...

De qualquer forma, enquanto voltávamos ao buffet para os doces, chá e café, um astrônomo surgiu para guiar-nos por uma exploração das estrelas no céu australiano. Para nossa alegria, os italianos saíram para uma área lateral para serem atendidos por um outro astrônomo e seu tradutor, enquanto nossa mesa ficou para uma exposição mais intimista. Muita ênfase foi dada ao fato de estarmos vendo o céu do hemisfério sul e nossas constelações como o cruzeiro do sul e as três-marias foram apontadas no céu para deleite dos americanos/britânicos acostumados a uma diferente paisagem celestial. Posteriormente, fomos convidados a observar algumas estrelas e a lua no telescópio ali montado.

Ao todo, são quatro horas, da saída do hotel ao retorno. E qual o veredito? É sim, programa feito para gringo, longe de ter um apelo que remeta a tradições aborígenes. Mas o pôr-do-sol é lindo, o jantar é agradável.  Se todos na sua família falam e entendem inglês, aproveita-se muito mais, desde as explanações feitas, até trocando ideias e fazendo amigos durante a refeição. Mas não diria que é imperdível.

Noite curta de sono. O programa do dia seguinte incluía o nascer do sol no Uluru. Como você percebeu, todos os programas em torno das rochas envolvem o nascer e o pôr-do-sol. Primeiro que por ser verão, as temperaturas são altíssimas e atividades ao ar livre entre 12 e 16 horas, um desafio e, segundo, por serem as pedras famosas pela mudança de cores que acontece nestes momentos. Assim, sem muita animação, despertamos às 4:15 da madrugada para encontrar nosso grupo. O hotel provê um lanchinho em uma caixa para aqueles que têm o café-da-manhã incluso e não poderão desfrutar do benefício por conta do passeio (deve ser solicitado com antecedência).

O ônibus estaciona numa área previamente preparada para que se aprecie o nascer do sol (Talinguru Nyakunytjaku). É tudo muito rápido, e no dia em questão havia nuvens, então não houve uma mudança dramática de cores. Vimos o sol nascer, comemos nosso lanchinho e em menos de meia-hora estávamos de volta ao ônibus para o trajeto até a base do Uluru em Kuniya Piti.
A caminhada completa em torno da rocha de aproximadamente 9 km inclui percorrer a “Base Walk” mais a “Lungkata Walk” e a “Mala Walk”. Nosso tour percorreu a pé parte da Base Walk no trecho entre Kuniya Piti e Mutitjulu - reservatório de água da chuva (waterhole) onde estão as rochas com pinturas rupestres e a Mala Walk até Kantju Gorge (cachoeira de 90 metros). Os demais trechos foram percorridos em ônibus.

Os guias distribuem garrafas de água mineral, protetor solar e insistem para que todos usem bonés e/ou chapéus – o calor é intenso e o trajeto, sem sombras. A caminhada é interessante e a todo momento os guias param para explicar o significado daquele ponto em particular no misticismo anangu. Em vários locais a fotografia é proibida.  Pede-se também que não se fotografe os anangus , eles acreditam em honrar os mortos não pronunciando seus nomes ou vendo suas imagens por algum tempo, o que fica impossível se estranhos capturarem tais imagens e levarem-nas mundo afora.

Os anangus atribuem uma significância espiritual ao Uluru e Kata Tjuta. Acreditam ser os descendentes de seres míticos que criaram toda a terra  durante a “Tjukurpa” ou época dos sonhos, o período da criação, e como tal aceitam que nós visitantes sejamos recebidos como seus convidados, pedindo que respeitemos sua fé e costumes.

Estes seres míticos incluem cobras, um emu, um lagarto. Várias lendas são narradas pelos guias nas paradas ao longo da caminhada, assim como os hábitos deste povo: alimentação, comunicação, rituais de passagem.  Sabe-se que muitas outras lendas existem, mas estas são segredos passados apenas aos anangus “iniciados” na religião e permanecem um mistério.

Se ver o Uluru de longe é mágico, vê-lo de perto é instigante: a rocha é cheia de saliências e reentrâncias, poços de água, cascatas, refúgios, pinturas rupestres. Tocar na pedra é possível em alguns locais, mas levar pedaços para casa é considerado mau-agouro e várias histórias existem de turistas que foram amaldiçoados pelo Uluru ao exibirem pedaços da pedra como souvenir.

É possível também escalar o Uluru, mas este tema é extremamente controverso. Os anangus consideram o Uluru sagrado e escalar a montanha, um sacrilégio. Assim, na base da escalada há um pedido formal dos anangus para que você não o faça. Eles não proíbem a subida, apenas pedem que você “escolha” respeitar suas tradições. A maioria respeita, mas muitos ignoram, principalmente os orientais.

A subida só é liberada se o clima estiver estável, sem chuvas ou ventos fortes e a temperatura abaixo dos 36°C – assim, se você pretender subir nos meses de verão, deve ir bem cedo pois quase sempre por volta das 9 horas a escalada já está fechada.

Uma corda fixa foi instalada para ajudar na subida a partir de um certo ponto. A subida é extenuante e perigosa, alguns já morreram pelo caminho.  Demora-se praticamente 3 horas ida e volta. Não preciso dizer que não fomos, não parecia fazer sentido vir até este lugar remoto para conhecer as tradições anangu e de cara desrespeitá-las. De qualquer forma, é uma opção de cada um, só leve em consideração suas condições físicas e as recomendações dos guias locais.

Depois de completarmos o roteiro fomos de ônibus até o Centro Cultural (você também pode fazer a caminhada a pé – a Luru Walk é uma caminhada tranqüila que se completa em 1 hora e meia aproximadamente).
O Centro Cultural é uma obra arquitetônica premiada. Dois prédios construídos em forma de serpentina para lembrar a historia das cobras ancestrais “Kuniya” e “Liru”. As exposições ilustram os mitos da Tjukurpa, falam sobre as tradições e costumes dos anangus e eventualmente alguns deles aparecem para contar histórias e observar os visitantes. Há algumas lojas no local vendendo arte aborígene e souvenires.

A brochura do Centro Cultural é primorosa, ilustra todas as lendas que você já ouviu a esta altura, as caminhadas e trilhas do parque, a fauna e flora da região, ensina algum vocabulário anangu e dá até explicações sobre a geologia do local, não deixe de pedir uma na entrada.  O tempo reservado pela ATT Kings para explorar o Centro Cultural era absolutamente insuficiente.  Teríamos ficado muito mais.

De volta ao hotel, desfrutamos de um almoço rápido no Gecko’s e uma bela “siesta” para nos recuperarmos do despertar tão cedo e da caminhada sob o sol.

Encontramos nosso grupo para a visita à Kata Tjuta por volta das 15:30. O ônibus parte diretamente para a base da rocha onde percorremos sozinhos (eles chamam de “self-guided tour”) os 2 km até a base do Walpa Gorge – uma caminhada de uma hora, ida e volta.

Kata Tjuta é um conjunto de domos (cerca de 36) dos mais variados formatos e alturas (kata tjuta em anangu significa “muitas cabeças”). Sua composição e origem geológica diferem daquela do Uluru.

Para algumas pessoas, Kata Tjuta é ainda mais impressionante que o Uluru, pelas inúmeras reentrâncias, “gorges” e nichos que podem ser explorados. Há ainda uma caminhada que não fizemos – a caminhada do vale do vento, “Valley of the Winds Walk”, um tanto quanto mais complexa com seus cerca de 7,5 km normalmente percorridos em 3 horas. Tal qual a subida do Uluru, ela está aberta apenas nas primeiras horas da manhã e fecha assim que as temperaturas atingem 36°C ou no caso de chuva e/ou fortes ventos.

Apreciamos muito a caminhada, o sol já estava mais brando, há sombras durante todo o trajeto. Logo no início, nos deparamos com pequenos cangurus alimentando-se livremente. E na volta....bem na volta avistamos camelos por todos os lados. Isso mesmo, camelos.... Já tínhamos ficado intrigados quando soubemos que passeios a camelo ao redor do Uluru eram oferecidos, mas finalmente entendemos o porquê.

Ao que parece, camelos foram primordiais ao permitir que os desbravadores cruzassem os lagos de sal que isolam o deserto australiano - os cavalos padeciam com o sol e a escassez de água. Assim, os ingleses “importaram” alguns camelos do Oriente Médio e finalmente completaram a travessia, encontraram o que é hoje o parque nacional e estabeleceram estradas, linhas telegráficas, pistas de pouso.

Mais de 10.000 camelos foram importados para o outback. Fazendas de criação foram estabelecidas. Mas, uma vez completos os projetos, os camelos perderam sua utilidade. Diz a lenda que resolveram então “se livrar” dos camelos e simplesmente os liberaram no deserto australiano a sua própria sorte. E contra todas as expectativas, eles não só sobreviveram, como  triunfaram. Há hoje mais camelos no deserto australiano do que no próprio Oriente Médio, estima-se uma população de quase um milhão deles!

Saímos de Kata Tjuta diretamente para uma das áreas de observação do pôr-do-sol no Uluru. Para nossa surpresa, estávamos muito mais próximos da pedra do que no Sounds of Silence e assim o espetáculo fica muito mais bonito. O pessoal da ATT King monta uma fila de cadeiras de frente para a pedra e serve espumantes, sucos e aperitivos para celebrar o final de mais um dia de explorações no deserto. Adoramos!

Voltamos para o hotel – mergulho na piscina, minutos de relaxamento e fomos em busca de um lugar para jantar – 21 horas e tudo absolutamente fechado. Até o supermercado estava fechado. Um absurdo tão grande que não há palavras...O jeito foi dormir de barriga vazia!

Partida: finalmente experimentamos o café da manhã do Deserts – totalmente dispensável. Não pague um tostão a mais em sua diária por ele. Nenhum atendente, um buffet esvaziado, poucas opções, nada gostoso.

Fizemos o check-out e partimos com nosso motorista da SEIT para o aeroporto, novamente driblando a fila dos muitos que chegaram alguns minutos depois no ônibus gratuito. O aeroporto é pequeno, mas é lá que fica a melhor loja de souvenires que tínhamos visto até então. Produtos locais, ótimas opções... Em poucos minutos estávamos novamente a bordo de um voo da Qantas, desta vez rumo ao norte, para Cairns, no estado de Queensland.

Se vale a pena ir até o outback? Para nós, não há dúvidas. É diferente de tudo o que você possa ter visto antes, o povo tem uma sabedoria e resiliência admiráveis. As pedras são lindas, inspiradoras. As caminhadas enriquecem e fazem refletir. Só não espere que sua experiência de hospedagem e alimentação seja excelente, pelo menos enquanto as coisas não mudarem, você “sobrevive”ao resort.






[1] Soubemos de uma família que conseguiu hospedar-se no hotel com crianças de 12 e 15 anos – segundo eles o hotel pode abrir exceções em época de baixa-temporada. Se você se interessou pelo local, vale confirmar.
[2] Reservas podem ser feitas no site do resort (http://www.ayersrockresort.com.au/sounds-of-silence/).

5 comentários:

  1. Olá, tudo bem?

    Sou editora de comportamento da Revista CRESCER e estamos preparando uma reportagem sobre as melhores praias para ir com bebês. Por isso, estamos entrando em contato com blogueiros que falam sobre crianças e viagens para saber qual é a sua favorita.

    Estamos pensando especialmente em crianças pequenas, até 3 anos. Topa participar dando suas dicas? Caso sim, me responda este e-mail com algumas informações:

    - Qual a sua praia favorita no Brasil?
    - Por quê?
    - Quantos filhos você tem e quantos anos eles têm?

    Pode me enviar um número de telefone para conversarmos melhor sobre a sua indicação?

    Desde já muito obrigada e um abraço,

    Cíntia Marcucci
    Editora de Comportamento / CRESCER
    Tel: (11) 3767-7861crescer.com.br
    Av. Jaguaré, 1485, 4º andar. São Paulo - SP
    CEP 05346-902

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    1. Olá, Cíntia,

      Agradecemos o interesse em nossa opinião. Das poucas praias em que estivemos no Brasil, sem dúvida Serrambi (PE) foi a que consideramos melhor para crianças pequenas. Para obter outros detalhes, solicitamos que nos mande uma mensagem por email (familiarecomenda@gmail.com).

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  2. Olá! Óptima partilha!

    Vou fazer uma viajem a Australia no final de Dezembro e sem dúvida que o deserto será um ponto de passagem!
    Gostaria de perguntar-lhe 2 coisas... pode ser que me consiga ajudar!

    Em relação às tours em Uluru e Kings Canyon, podemos faze-las sozinhos? Ou obrigatoriamente temos que contratar um guia, etc, etc

    E em relação ao alojamento... Nós estamos a pensar em alugar uma carrinha ou um jipe e dormir no carro, pois já nos disseram que existem vários sitios para parar e dormir assim como WC e chuveiros!

    Obrigada!
    Carina Gomes

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    1. Carina,

      Veja a resposta da autora do post: "Não fomos a Kings Canyon, que fica um pouco afastado do Uluru. Mas no Uluru, você pode sim fazer tudo sozinha. Sugiro que compre os ingressos para o parque e vá direto ao Centro Cultural onde você encontrara as melhores brochuras com instruções bem detalhadas sobre as lendas e os detalhes do monumento. Quanto a dormir no carro, que eu saiba acampamento dentro do perímetro do parque é proibido, existe sim um camping dentro do complexo de hotéis, mas não sei se eles permitiriam que vc dormisse dentro do carro. De qualquer forma, lembre-se que as temperaturas no deserto em dezembro são muito altas desde muito cedo pela manha (nós pegamos 38C as 8:30 am) e que há muitas e muitas moscas e mosquitos de todo tipo, que podem fazer dormir no carro um desafio!"

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  3. Olá!

    Obrigada pela informação.
    Em relação à dormida no carro, nós pensamos parar nas áreas de descanso que existem pela estrada do deserto,onde é permitido... mas não vai ser fácil!!!

    Não consigo encontrar o post que menciona...

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